Saudosa padoca

padocaEm um passado não tão distante, a padaria do bairro nos fornecia o pãozinho fresco de cada dia, leite e frios fatiados na hora para montar aquele lanche caprichado. Guiados pelo incrível aroma das fornadas, os fregueses da casa aguardavam a vez na fila para escolher entre os clarinhos ou moreninhos. Fosse final de semana, aumentava a disputa por tortinhas de maçã e sonhos recém-chegados ao balcão.

 

Hoje os tempos são outros. Não só pela variedade: pães com granola, frutas secas, cereais integrais, feitos com ingredientes orgânicos e farinhas especiais, a partir da fermentação natural (au levain), além de vitrines repletas de cupcakes, macarrons e brigadeiros de todos os sabores. De uma hora para outra, a padoca do bairro tornou-se um espaço gastronômico. “Para fazer frente à agressiva concorrência dos grandes supermercados, as padarias tiveram de se reinventar, modernizando o layout das lojas e investindo em novos produtos e serviços: vinhos, frutas, hortaliças, pizzas, congelados, itens importados, além de oferecer refeições, serviço de delivery e horários estendidos”, resume José Batista de Oliveira, presidente da Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria (Abip).

Não são poucos os endereços focados nessa tendência gourmet, onde a conveniência de reunir serviços num único lugar, do café da manhã à ceia, agrada a clientela. Mas, com tantas novidades ainda a caminho, será que as guloseimas de padaria, que nos fazem viajar por sabores e aromas de infância, correm o risco de ser esquecidas pelas novas gerações? “Nosso paladar está em constante mudança e sempre fazemos novas escolhas. Hoje buscamos algo mais sofisticado e ficamos também mais exigentes. Os doces tradicionais já não reinam absolutos nas vitrines, porém fazem sucesso por serem clássicos que se renovam”, considera o chef confeiteiro Rafael Barros, da Ópera Ganache, de São Paulo. Apropriando-se de um termo da área da moda, ele considera “vintage” alguns produtos da nossa confeitaria, como o sonho e a bomba: antigos, porém, atuais, sempre em evidência. Para Rogério Shimura, proprietário da Levain Escola de Panificação e Confeitaria, em São Paulo, é primordial resgatar receitas antigas, que despertam a memória gustativa. “Nossos profissionais vão estudar fora, são ávidos por trazer técnicas e produtos de outros países. Da mesma forma, temos que valorizar receitas tradicionais, como a rosca de coco, cangalha, o pão sovado, entre tantas outras”, afirma.

Brigadeiros, carolinas, suspiros coloridos, rosquinhas açucaradas, tortas de frutas, além das típicas receitas de herança portuguesa, como pudim, queijadinha, o pastel de natas e o quindim, continuam sendo os queridinhos do gosto popular, seja para devorar na hora ou para se lambuzar em casa.
A diferença é que os doces acompanharam a tendência gourmet das padarias. Com visual renovado, conseguem manter-se num mercado repleto de novidades. O sucesso está em servir porções menores, apostar em ingredientes de qualidade (em vez das misturas semiprontas que muitas padarias usam de forma abusiva), desenvolver preparos mais artesanais e saudáveis, além de uma apresentação impecável. Os brigadeiros são servidos em copinhos, com granulados e confeitos importados. O sonho, antes limitado à fritura, também pode ser assado. Sem falar na vantagem de oferecer miniporções: tortinhas que rendem uma ou duas mordidas; roscas menores, moldadas com delicadeza; bombas e suspiros que preservam suas calorias e gorduras, porém, em tamanhos que satisfazem nosso desejo por açúcar.

Fonte: Portal Espresso

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